Justus Uwayesu e os caras da caverna de Platão

Justus Uwayesu e os caras da caverna de Platão

Já ouviu falar sobre Justus Uwayesu ?

Justus nasceu em Ruanda (África), onde, em 1994, por conta de uma guerra civil, houve o extermínio de aproximadamente 800 mil pessoas, na sua maioria das etnias tutsis e hutus. Justus deveria ter entre 3 e 4 anos quando seus pais foram mortos (sua data de nascimento não é conhecida).

Nos quatros anos seguintes, ele e muitos outros órfãos foram acolhidos por voluntário da Cruz Vermelha. Porém, devido ao crescente número de órfãos, foram novamente abandonados em suas vilas de origem.

Por volta do ano de 2000, foi sobreviver num lixão da capital – onde deve ter ficado por pelo menos um ano.

Um dia o lixão recebeu a visita de uma assistente social. As crianças que lá viviam saíram correndo e apenas Justus ficou onde estava. Curiosa, a assistente social lhe perguntou o motivo de não ter saído correndo como as outras crianças o fizeram. E Justus lhe respondeu:  “Eu quero ir para a escola !(1 e 2)

Justus não só foi para a escola, como, em 2014, graças a uma bolsa de estudos, entrou para a Universidade Harvard (uma das mais tradicionais dos EUA) onde foi cursar matemática, economia e direitos humanos.

Agora, o que Justus tem a ver com “os caras da caverna” ? (3 e 4)

Antes de mais nada, um breve resumo para quem não conhece essa metáfora.

Pessoas cresceram e viveram acorrentadas no fundo de uma caverna. O máximo que conseguem ver são as sombras que são projetadas no fundo da caverna por uma fogueira que há atrás deles. Ao ouvirem os sons que chegam até eles, acreditam que esses mesmos sons são produzidos pelas sombras que vêem.

Nunca ninguém saiu do fundo da caverna. A única verdade, a única realidade que seus habitantes conheciam era a própria caverna e as sombras que eram projetadas em seu fundo…..até que um dia…. alguém sai (ou é libertado).

Agora, voltando ao tema: qual a relação entre Justus e “os caras da caverna” ?

Sair da caverna simboliza a busca pelo conhecimento, pelo novo; o que fez Justus quando manifestou o desejo de ir para a escola.

Mas, assim como “apenas um” saiu da caverna, apenas Justus “enfrentou” a assistente social e se permitiu, dentre inúmeras outras crianças, a ir além do mundo já conhecido….

Algumas pessoas são como Justus: anseiam por mais; a todo instante querem saber se há ou procuram por “vida além do muro”; não se contentam com as limitações das respostas padrões, com o “é assim mesmo”, “não tem jeito”, sempre foi assim”, “pra que mudar”.

Se você for como Justus, queiro que saiba que está tudo certo, que não é pecado algum pensar ou agir de forma diferente; que não está sozinho. Podemos (sim, eu me incluo nesse grupo) não ser em grande número; mas com certeza há muitos de nós espalhados por aí, tentando sair de suas cavernas, pulando muros, questionando, enfrentando, incomodando….

E se você se sentir mais seguro entre aqueles muitos que preferem não se arriscar a sair do fundo da caverna ou ainda estar entre as crianças que, ao fugir da assistente social, optaram por continuar vivendo no lixão, também quero que saiba que está tudo certo. Afinal, não há certo ou errado; é um direito seu desejar ou escolher ficar onde está.

Mas, a essa altura talvez seja adequado fazer o seguinte questionamento:

– Se você soubesse que poderia sair da caverna ou do lixão, em segurança, e viver uma outra vida, plena, saudável, você ainda assim escolheria viver na caverna ou no lixão ?

Se você responder não, então simplesmente venha, seja bem vindo ! Haverão sim desafios, mas saiba não estará sozinho !

Se você responder sim, saiba que:

  1. Essa “escolha” pode na verdade não ser uma “escolha”, mas fruto de um “medo inconsciente”, de nossa evolução ou programação genética.
  2. Sentir “medo” garante sim a preservação e sobrevivência da espécie – o que até certo ponto é bom.
  3. Mas, sentir medo demais paralisa, adoece, atrasa nossa evolução.

E, por mais que a caverna quanto o lixão possam parecer seguros; também é adequado considerar que tudo está em constante movimento, nada no universo é estático – com exceção de nossa percepção.

Em outras palavras, com ou sem medo, em algum momento a caverna irá desmoronar, o lixão irá acabar e você será “convidado” a se expor, a se por em movimento – nem que seja para outra caverna….

“O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. Só o que está morto não muda !” (Clarice Lispector)

  1. https://m.folha.uol.com.br/mundo/2014/11/1541457-apos-infancia-em-lixao-ruandes-chega-a-harvard.shtml
  2. https://www.seattletimes.com/nation-world/this-harvard-freshman-once-lived-in-a-rwandan-dump/
  3. https://pt.wikipedia.org/wiki/Alegoria_da_Caverna#Mito_da_caverna
  4. https://mundoeducacao.uol.com.br/filosofia/mito-caverna.htm

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