Traumas coletivos (Covid-19)

Traumas coletivos (Covid-19)

Nos últimos dias, por conta da atual pandemia, ou se abordam questões relacionadas com medidas de prevenção e tratamento da doença (uso ou não de máscaras, cloroquinas, isolamento) ou sobre o número de mortes ou – melhor deixar pra lá…

Outra questão tão importante quanto as acima mencionadas; porém sequer discutida pelo público em geral, refere-se aos efeitos emocionais e comportamentais que essa atual pandemia deixará no longo prazo.

Os resultados de eventos que foram testemunhados ou vivenciados por um grande grupo e que podem afetar a maneira como as pessoas se sentem e agem – e, às vezes, resultar em mudanças culturais e sociais, são chamados de “traumas coletivos”.  Alguns desses eventos são imediatos e relativamente limitados em sua duração (acidentes, explosões, terremotos, enchentes, etc). Outros acabam por ter um impacto muito mais prolongado (recessão econômica, guerra civil, doenças em larga escala – tipo SARS, ebola, etc). Vejamos dois exemplos.

A crise econômica de 1929
A crise de 1929 foi uma grande crise econômica que persistiu até o final da Segunda Guerra Mundial (1945) , sendo considerado como o pior e mais longo período de recessão econômico do século XX. Como resultado, de um lado desemprego e fome, do outro sentimentos de ansiedade e vulnerabilidade, aumento nas taxas de suicídio.

Ataques de 11 de setembro de 2001 
Mais de 100.000 pessoas testemunharam diretamente os ataques às torres do World Trade Center, enquanto milhões assistiram o evento se desenrolar na televisão – fosse ao vivo ou através de reprodução nos dias, semanas e meses seguintes.

Esse evento levou a algumas reações comportamentais negativas, imediatas e muito claras: discriminação religiosa e intolerância política em relação aos muçulmanos ou pessoas que eram vistas como similares ou afiliadas aos agressores. No âmbito emocional, inúmeras pessoas relataram sentimentos de angústia, estresse agudo e medo contínuo de novos ataques terroristas.

Os efeitos do COVID-19  e as gerações futuras
O trauma coletivo pode influenciar a forma como as pessoas percebem o mundo e gerar mudanças em suas crenças e atitudes; assim como impactar o modo de vida das gerações futuras.

Pesquisas publicadas em abril/2020 pelas universidades dos estados de Oklahoma e Texas (EUA), realizadas com amostras de pessoas em quarentena e de profissionais de saúde,  apontaram várias reações emocionais e comportamentais; tais como estresse, solidão, depressão, irritabilidade, insônia, medo, confusão mental, raiva, frustração, tédio. Causas apontadas para essas sequelas: temor de maior duração do confinamento, falta de alimentos, dificuldade em obter assistência médica e medicamentos, e perdas financeiras resultantes do processo de quarentena.

Na pandemia atual, o confinamento domiciliar de grandes faixas da população por períodos indeterminados, ordens ou orientações emitidas por várias jurisdições e mensagens conflitantes do governo e das autoridades de saúde pública provavelmente intensificarão o sofrimento; podendo ainda gerar atos de desobediência e violação da ordem. É esperado aumento imediato no consumo, senão dependência, de álcool e fumo.

Segunda onda ?

Especialistas acompanham a possibilidade de uma segunda onda do Covid-19 e o Fórum Econômico Mundial alerta para o aumento de casos de absenteísmo (período em que o funcionário não comparece ao trabalho) e burnout (esgotamento físico e mental), justamente quando a sociedade mais precisará de pessoas capazes para recuperar a economia.

Como lidar com os efeitos de um trauma

É preciso informar as pessoas que uma reação psicológica é algo normal e que há várias abordagens para minimizar os efeitos da atual pandemia. A Organização Mundial de Saúde recomenda:

  • Limite o acesso as mídias (ler, assistir, ouvir notícias que possam aumentar seu nível de estresse ou ansiedade).
  • Durante os períodos de estresse, preste atenção às suas próprias necessidades e sentimentos. Distraia-se com atividades saudáveis que você goste ou considere relaxantes. Faça exercícios regularmente, mantenha rotinas regulares de sono e alimente-se de forma saudável.
  • Proteja-se e seja solidário com os outros. Ajudar outras pessoas em seu momento de necessidade pode se beneficiar tanto a pessoa que recebe apoio quanto quem o ajuda.
  • Fique conectado com os outros. Mesmo que o distanciamento social exija a limitação do contato pessoal com outras pessoas, é importante manter suas conexões sociais. Graças à tecnologia, é possível ser criativo e continuar a encontrar amigos, familiares, colegas de trabalho e outros virtualmente.
  • Encontre ou desenvolva oportunidades para compartilhar de histórias positivas e esperançosas.
  • Honre os prestadores de cuidados e os profissionais de saúde que apoiam as pessoas afetadas pelo COVID-19 em sua comunidade. Reconheça o papel que eles desempenham em salvar vidas e manter seus entes queridos em segurança

Vejamos agora algumas abordagens para o âmbito estritamente pessoal.

1. Identifique exatamente o que se está sentindo

Emoções podem ser identificadas de 3 formas: a) pensamentos (idéias ou imagens que surgem em sua cabeça), b) sensações físicas (mudanças físicas em seu corpo, como por exemplo, aumento da freqüência cardíaca ou náusea, dor no peito, dor de barriga ou cólica, dor de cabeça), c) comportamento (a ação que você deseja executar).

Após identificar, sua emoção, trate de definir “estratégias saudáveis” para lidar com sua questão.

2. Exercite-se

As substâncias relacionadas ao estresse são eliminadas através do exercício físico, moderado à intenso; através da transpiração. Portanto, seja dentro ou fora de casa, trate de se mexer !

2. Aprenda a meditar

Meditar não tem nada a ver com religião, tampouco com “esvaziar a mente”. Meditar é praticar o “foco”. Ao focarmos (num ponto, questão, dimensão) abrimos mão de nosso lixo mental (daí a sensação de “esvaziar” a mente).

3. Foque no que realmente importa e aumente suas chances de sucesso !

Faça uma revisão de seus objetivos, metas, desejos e necessidades.

Aceite que suas próprias limitações; seja no que disser respeito à sua energia, capacidade, habilidade, recursos, oportunidades, saúde, etc.

Abra mão, livre-se do que for supérfluo  e canalize, concentre suas energias apenas no que lhe for realmente importante. 

4. Use e abuse de um “diário”

Isso mesmo: passe para o papel todas as suas experiências, histórias, sensações, emoções, expectativas. É uma ótima maneira de dar um sossego, tirar as preocupações da esfera mental.

5. Invista um tempo com amigos e familiares – solidários.

Algumas simples atividades podem fazer muita diferença: dar um passeio, tomar café da manhã, jogar cartas ou tabuleiro, etc.

6. Procure ajuda.

Muitos terapeutas estão oferecendo serviços on-line como resultado da pandemia e também existem muitos sites de terapia on-line que podem oferecer assistência durante esse período.

Se precisar trocar uma palavra, não deixe de entrar em contato.

Fique bem !

Esteja seguro !

Fique em casa ! (se possível)

 

Posts antigos relacionados com o tema:

Estresse: na mente ou no corpo ?

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Lidando com a raiva de uma forma saudável !

Referências

https://www.who.int/docs/default-source/coronaviruse/mental-health-considerations.pdf?sfvrsn=6d3578af_10

https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMp2008017

https://www.weforum.org/agenda/2020/04/this-is-the-psychological-side-of-the-covid-19-pandemic-that-were-ignoring/

https://www.verywellmind.com

 

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