Quem não se comunica se trumbica.

Quem não se comunica se trumbica.

Abelardo Barbosa, está com tudo e não está prosa……..

Se você, caro(a) leitor(a), tiver menos de 30 anos, muito provavelmente não terá ouvido falar de “Abelardo Barbosa”, mais conhecido por Chacrinha ou Velho Guerreiro (homenagem feita a ele por Gilberto Gil, em sua música “Aquele Abraço” – espero que do Gilberto você já tenha ouvido falar).

Chacrinha foi um dos maiores – senão o maior comunicador de rádio e televisão, apresentador de programas de auditório e que imortalizou a frase tema deste artigo: “quem não se comunica se trumbica” ; ou seja, dá-se muito mal. Se tiver dúvidas, pergunte à mamãe ou à vovó…

 

O que é essa tal de “comunicação” e qual sua importância ?

De forma resumida, comunicação nada mais é do que um processo, entre duas ou mais pessoas, composto pela ação de transmitir uma mensagem e, eventualmente, receber outra mensagem como resposta.

Assistiu ao filme “Náufrago” ? Lembra-se do pobre coitado do sobrevivente que ficava “conversando” com uma bola, o “Wilson” ? Para que exista “comunicação” há de se ter “alguém” para perceber, receber e/ou interpretar a mensagem enviada. Sem o “outro” o que há é apenas a prática de um ato solitário, senão insano – né Wilson ?

Por representar a base de todo relacionamento humano, é através desse processo que “nós” expomos nossas necessidades e sentimentos, trocamos ideias e informações. Sem esse “processo”, sem essa troca, cada indivíduo viveria de forma isolada – como o náufrago, falando sozinho…

Vamos agora tentar entender melhor algumas características desse processo.

He aha ta matou e korero nei ?

Você já pensou em conhecer a Nova Zelândia ? Não seria incrível ter a oportunidade de passar alguns momentos com os maoris, povo nativo da ilha, conhecidos por sua amabilidade ?

Como seria estar lá, no meio de uma festa, papo rolando solto, quando a uma certa altura da conversa, um maori lhe pergunta: He aha ta matou e korero nei ?

Não entendendo nada, você faz aquela cara de poste e olha ao seu redor, procurando por alguém que possa lhe ajudar. Nesse momento, um australiano vem ao seu socorro e lhe diz: Hi, be cool. I will help you. The maori said: “what are we talking about ?”.

E você, que também não entende muito bem o inglês, continua com sua cara de poste….

Houve “comunicação” ? Hummmm…. Bem, tudo mundo falou – isso é certo ! Portanto, mensagens foram enviadas.

Fazendo de conta que no local não havia ninguém impossibilitado de, simultaneamente, ouvir ou ver o outro; então mensagens (falas, gestos, olhares, respiração, etc) foram percebidas, recebidas e, dentro do possível, foram interpretadas.

Enfim, tecnicamente falando, houve sim uma “comunicação” – troca de mensagens, verbais ou corporais – entre duas ou mais pessoas.

Mas eu não falei nada……..

Imagino que alguém já tenha ficado bravo ou brigado contigo – sem que você tenha aberto a boca ou feito coisa alguma. Ou ainda, que alguém já tenha reclamado do “seu jeito de olhar”… Estou certo ?

Há um pressuposto em linguística (estudo científico da linguagem) de que “é impossível não se comunicar”; o que significa que a todo instante enviamos mensagens às pessoas ao nosso redor.

A relação entre pessoas não se resume ao simples “falar”, uma vez que também é constituída pelo que é observado e percebido pelo “outro”; seja o olhar, o tom ou velocidade da voz, os gestos ou postura corporal, a respiração, a roupa que esteja sendo usada, o porte de objetos ou adornos pessoais (comunicação não verbal) e por aí vai. Esse processo acontece naturalmente e não há como controlá-lo. O indivíduo já nasce programado para procurar sinais faciais e comportamentais, a fim de compreender seu significado.

Como muitas das mensagens que enviamos nos são desconhecidas (inconscientes) ou não intencionais, quem a recebe “alucina”, ou melhor, a interpreta de acordo com seu “modelo de mundo” (forma de perceber e julgar os acontecimentos com base em sua história de vida, formação cultural e social, de seu estado emocional – muito mais para reviver experiências passadas do que vivenciar o momento).

Estou falando grego ?

Você já teve a sensação de “estar falando grego” ? De que, por mais que se esforce, o “outro” não o compreende ? E quando isso acontece, muito provavelmente você fica com a impressão de que o “outro” ou é burro ou está tirando uma com a sua cara…. Não ?

Há um outro pressuposto em linguística de que “o resultado da comunicação é de responsabilidade do comunicador”; ou seja, a responsabilidade pelo resultado é de quem fala, de quem transmite a mensagem.

Voltando às perguntas que fiz acima, com base nesse pressuposto o que pode ocorrer é que talvez o outro não seja burro, mas você se utilize de palavras, informações, referências ou padrões de linguagem difíceis de serem compreendidas pelo outro (isso é tema para um outro tópico).

Quando você desejar saber se foi compreendido, lembre-se do seguinte pressuposto: “a eficácia da transmissão de sua mensagem é medida pelo tipo de reação que produz no outro”.

Quer um exemplo ?

Um homem nota que sua colega de trabalho está de vestido novo e, com boas intenções, decide fazer um elogio e diz: “Puxa! Você está linda com esse vestido!”

Se ela se sentiu lisonjeada, sorriu, agradeceu e nada mais, muito provavelmente a “boa intenção” terá sido compreendida.

Porém, se ficou furiosa, bufou, fez cara feia ou saiu imediatamente da sala, muito provavelmente terá entendido como uma tentativa de cantada ou paquera (lembra-se que acima falamos em “interpretação de acordo com o modelo de mundo” ?); o que indica que, se houver uma próxima vez, o homem deverá se dirigir a essa mulher de uma outra maneira.

Não se convenceu ? Então vou lhe contar o que me aconteceu quando finalizava esse texto.

Uma visita estava em casa e se prontificou a realizar uma determinada tarefa ( X ). Eu estava de saída e pedi à visita a gentileza de realizar um outra pequena tarefa ( Y ). Como  iria ficar fora por quase duas horas, EU “alucinei” que a visita faria a tarefa X em menos de uma hora e a tarefa Y em menos de 20 mins. Resultado: voltei duas horas depois, a tarefa Y (que era importante para mim, não para a visita) não havia sido feita e a tarefa X consumiu quase CINCO horas, tamanho o detalhismo da visita.

Analisemos agora o meu “causo” com base nos pressupostos acima: 1. responsabilidade do comunicador pelo resultado e 2. eficácia medida pela reação produzida no outro.

1. Não tive o resultado que desejava pois EU não tornei claro à visita o quanto a tarefa Y era importante para mim.

2. Não houve reação. Na verdade, não houve qualquer demonstração de interesse; o que demonstra que a mensagem não foi percebida ou validada como importante (e eu não me dei conta disso no ato da transmissão da informação).

Em busca da excelência.

Fazer-se compreender, ter o resultado desejado, envolve algumas habilidades; tais como:

Empatia

Imagino que você queira ser aceito e respeitado tal como você é; que os outros compreendam seus problemas e o acolham. Veja só: “o outro” também. Coloque-se no lugar dele, respeite suas necessidades e emoções.

Se não estivermos em sintonia com o outro, certamente não conseguiremos nos fazer entender, a qualidade da relação ficará comprometida e as coisas não sairão como desejamos.

Focar no fato, não na pessoa

Quando não estamos conscientes de nossas próprias emoções, é muito comum adotarmos posturas defensivas e reativas, projetarmos no outro as nossas próprias questões ( dizia Freud).

Qualquer que seja o cenário ou adversidade, evite levar as coisas para o pessoal e foco na questão, nos fatos, no problema (se houve algum a ser resolvido).

Lembre-se que você é a única pessoa responsável por sua própria felicidade, por decidir como querer se sentir. 

Não julgar o outro.

Há dois mil anos já ouvimos que “quem não tiver nenhum pecado que atire a primeira pedra”, e a sabedoria popular consagrou o ditado “não julgue para não ser julgado”.

Experimente se interessar pela história e situação, compreender o outro.

Canal processual

Cada um de nós funciona por meios específicos; alguns são visuais, outros auditivos e outros cinestésicos (sensações físicas). Falar de cores (visual) para quem trabalha com música (auditivo), não costuma dar muito certo. Respeitar o “canal processual” significa falar a língua do outro . Os mestres da comunicação, assim como os estelionatários, falam por meio de palavras inespecíficas (aquelas que agradam a todos, com as quais todos concordam). Vale a pena aprender a respeito.

Precisão de linguagem !

Durante sua comunicação o ser humano naturalmente tende a:

  • generalizar,
  • omitir, ou
  • distorcer as informações.

Precisão de linguagem passa a ser então a arte de achar as palavras mais adequadas para descrever o que se deseja dizer; de forma simples, clara e objetiva.

Atribui-se à Leonardo da Vinci (um dos maiores gênios criadores da história) a frase “o mais nobre prazer é a alegria da compreensão”. Em outras palavras, “compreender e ser compreendido” resulta em fonte de satisfação e melhores relacionamentos.

Colaborar para que o outro nos compreenda (e assim evitar interpretações equivocadas) beneficia nossos relacionamentos; pessoais e profissionais.

Tem dificuldade com a ideia ? Então, não deixe de assistir ao filme “O doador de memórias”.

Pontualidade

Marshal B. Rosenberg, autor do livro “Comunicação Não Violenta” (Editora Ágora – leitura recomendada e obrigatória) relata uma experiência vivida com sua própria mãe:

“Minha mãe esteve uma vez num seminário em que outras mulheres estavam discutindo quanto era assustador expressar suas necessidades. De repente, ela se levantou, deixou a sala e não voltou por um longo tempo. Ela finalmente reapareceu, parecendo muito pálida. Na presença do grupo, perguntei: “Mamãe, a senhora está bem ?”

“Estou”, ela respondeu, “mas de repente percebi uma coisa que foi muito difícil para eu aceitar”.

“O que foi ?”

Acabei de tomar consciência de que tive raiva de seu pai durante 36 anos por ele não atender às minhas necessidades, mas agora percebo que não disse a ele nenhuma fez com clareza do que necessitava”.”

Pior do que não saber se comunicar é guardar para si próprio emoções negativas – que ao final nos adoecem.

Qualquer que seja a questão, ela merece ser expressada ou compartilhada no tempo certo, no momento adequado; sem o que perderá sua razão de ser.

Então, não deixe para amanhã o que você precisa expressar hoje !

Não ter medo; pois “Preciso saber se estou indo bem !”

É normal qualquer pessoa ter medo do novo, do desconhecido. Ocorre que nas relações pessoais esse medo costuma ir além da conta: temos medo de falar para o outro o que pensamos e também temos medo de saber do outro o que ele tem a nos dizer. Aí você há de concordar que fica difícil desenvolver boas relações.

Para ajudá-lo(a) nesse processo de “contribuições pessoais”, ou melhor, sobre a importância de dar e receber feedbacks, quero indicar-lhe o a obra de Richard L. Williams, Editora Sextante: “Preciso saber se estou indo bem”.

Mas, o que afinal é “feedback” ?

Em resumo, é um processo de ajuda para mudanças de comportamento; comunicação a uma pessoa ou grupo, no sentido de fornecer-lhe informações sobre como sua atuação, comportamento ou desempenho está afetando outras pessoas”.

“Feedback” não deve ser confundido com julgamento, palpite ou opinião.

Feedback deve ser pautado em fatos,com atenção máxima aos detalhes e com foco no que é importante a ser comunicado, com objetividade. A abordagem pessoal é bem vinda quando ocorre sem conselhos ou julgamentos. Nesse caso, apenas expõe-se os sentimentos em relação ao fato específico e o porquê, a causa de sentir-se da forma descrita; sendo adequado estar aberto a também ouvir o que o outro poderá ter a dizer respeito.

Escutatória

Diz-se que “se falar vale prata, o silêncio vale ouro”. E muito mais do que o ouro, o que vale mesmo é ouvir o outro, com a alma e o coração abertos.

Sobre esse tema, quero convidá-lo(a) a leitura de um texto prá lá de maravilhoso de Rubens Alves: Escutatória (basta clicar aqui).

Finalizando

Espero de alguma forma ter contribuído para esclarecimento do tema.

Se gostou, se tiver dúvidas ou sugestões, não deixe de registrar seus comentários ou mesmo enviar um email (contato@clareandoideias.com).

Se tiver dicas de boas leituras, não deixe de compartilhá-las: serão super bem vindas.

Paz a todos !

 

 

 

 

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