Deu no New York Times: “Porque você odeia o seu trabalho !”.

Esse texto é uma adaptação de um artigo publicado em 01/06/2014, no “The New YorkTimes”, de autoria de Tony Schwartz, consultor da The Energy Project (empresa de consultoria que propõe as empresas a busca por um “alto desempenho sustentável”) e de Christine Porath, professora associada da Georgetown University’s McDonough School of Business.
Captura de tela 2015-04-07 17.44.58Achei seu título ousado, senão até mesmo agressivo, o que chamou minha a atenção. Na verdade, o artigo não trata sobre “ódio”, mas sobre desmotivação, falta de empenho, prazer, comprometimento e, por fim, resultados.

Dizem os autores que “a maneira que nós estamos trabalhando não está funcionando”. Que mesmo se tivermos a sorte de ter um emprego, provavelmente não chegamos ao escritório pela manhã muito animados, que não estamos nos sentindo valorizados, que em meio a tantas distrações e cobranças não estamos conseguindo dar o melhor de nós e quando conseguimos isso não faz a menor diferença.

Ao ler o tal artigo me senti incluído, compreendido, representado. Pensei: puxa vida, finalmente estão entendendo a realidade, o dia a dia de quem realmente trabalha.

Mas me enganei. Na verdade o tal artigo apenas se desdobra em dados baseados no “alto escalão” e, pasmem: segundo os autores, o “alto escalão” também já não está mais dando conta, está jogando a toalha, está dando sinais de bornout (de acordo com pesquisas do Dr Srinivasan S. Pillay, psiquiatra e professor clínico assistente na Harvard Medical School).

E não pensem, queridos leitores, batedores de cartão de ponto, que se alguém está levantando estatísticas a respeito de bornout é porque estejam preocupados com sua saúde física ou mental; pois a coisa vai muito mais além e no fundo a fórmula é até muito simples: se sua saúde física ou mental não anda boa, muito provavelmente você não está produzindo ou, pior, você anda comprometendo a produtividade de sua equipe, de sua empresa. Em outras palavras, do que está se falando é de lucro, rendimento, produtividade; a má qualidade de sua saúde física ou mental comprometem os lucros. É isso, me perdoem.

Países como a Inglaterra já contabilizaram os prejuízos na economia e transformaram esse tema em questão de “saúde pública”; ou seja, a coisa é seria sim.

Apesar do “bornout” ter sido citado, há de nos atentarmos também para os casos de presenteísmo – quando o indivíduo comporta-se como um “morto vivo”, como um zumbi”; comparece a empresa mas não produz, não rende – mas não o faz por simples má vontade. Isso acontece porque o indivíduo está no limite e muitas vezes não reconhece, não se dá conta – aliás, essa é uma das características do estresse: achar que tudo é normal, assim mesmo.

Antes de começar a vender seus serviços (afinal ninguém escreve artigo no NYT ou em qualquer revista especializada apenas com boas intenções, apenas para orientar ou ajudar o próximo), Tony Schwartz, da The Energy Project, traz dois dados considerados alarmantes: de acordo com um relatório de 2013 elaborado pelo Instituto Gallup, apenas 30% dos empregados na América se sentem engajados no trabalho; enquanto que, no resto do mundo, segundo pesquisa realizada em 142 países, a proporção de trabalhadores que se sentem engajados no trabalho é apenas de 13%.

Ao se referir a palavra “engajamento”, o que Tony não disse ou tentou evitar foi que 70% dos empregados na América e 87% dos trabalhadores dos 142 países pesquisados estão desmotivados.

No final, ele reconhece o que talvez sejam algumas das causas: “A demanda para o nosso tempo é cada vez mais superior a nossa capacidade, drenando a energia de que precisamos para trazer totalmente à vida nossa habilidade e talento. A ascensão da tecnologia digital é talvez a maior influência, expondo-nos a uma inundação sem precedentes de informações e solicitações sobre a quais nos sentimos compelidos a ler e responder a todas as horas do dia e da noite”.

Encurtando um pouco a história (se alguém quiser detalhes o link está ao final da página), acho que faltou coragem aos articulistas; pois no final não falaram nada de novo; ou seja, que “funcionários são muito mais satisfeitos e produtivos, ao que parece, uma vez cumpridas quatro das suas principais necessidades: físico, através de oportunidades para renovação e recarrega regular no trabalho; emocional, pelo sentimento valorizado e apreciado por suas contribuições; mental, quando têm a oportunidade de se concentrar e se absorver de sua própria forma em suas tarefas mais importantes e definir quando e onde fazer o seu trabalho; e espiritual, fazendo e desfrutando mais do que eles fazem de melhor, e por sentirem-se ligado a um propósito mais elevado no trabalho.

Convenhamos, esse tipo de “sugestão”, para constituição de um ambiente de trabalho saudável não é novidade – e, portanto, já está ultrapassada; qualquer um da área de RH deve saber que investimentos dessa natureza são retorno garantido (ainda que as empresas nem sempre se arrisquem a esse tipo de investimento).

Mas Tony e Christine estão a vender a ideia de um “ambiente de trabalho sustentável” e aí fico me perguntando: ok, monta-se toda uma infra dentro da empresa e o cidadão pega trem, metrô e ônibus, e leva quase três horas para vir e mais três horas para voltar para casa; alguns “apenas” cuidam de suas famílias, outros ainda estudam.

Será que alguém está levando isso em consideração ?

Será que alguém já parou para pensar (e tenho certeza que a resposta é “sim) que tudo é “sistêmico”; ou seja, a sustentabilidade e/ou produtividade do ambiente de trabalho está correlacionada à sustentabilidade familiar e social ? Isso significa que a produtividade de qualquer empresa está correlacionada com alimentação, saúde, educação, moradia, mobilidade, lazer, etc, de seus colaboradores e familiares.

No final, o discurso dos RHs e consultorias são todos muito bonitos, envolventes e em alguns momentos até mesmo empolgantes – mas não eficazes.

Costumo dizer que “o sapato ficou apertado”, as populações e cidades se expandiram de tal forma que já estamos vivendo encostados um nos outros – só que ainda não aceitamos tal fato, não dos demos conta disso, continuamos a fazer de conta que …….

Mas afinal, o que fazer ?

Muitos de nós não se dão conta de que levam seus problemas pessoais e familiares para o trabalho e seus problemas de trabalho para casa, para sua própria família – loucura isso não ?!

Abolir os empregos ? Certamente que não. “O pão nosso de cada dia” continua sendo abençoado e muitos dos nossos dependem dele para sua sobrevivência.

Continuar a trabalhar de forma asfixiante e odiando nossos empregos ? Maneira triste de viver, senão desperdiçar a vida…

Nessa altura do campeonato, prefiro compartilhar da fala de Roselinde Torres, sócia e diretora-gerente Boston Consulting Group, especializada em liderança (link abaixo de sua palestra no TED vale a pena dar uma olhadinha).

Ela nos convida a no mínimo três reflexões:

1. Para onde você está olhando para antecipar a próxima mudança de seu modelo de negócio ou de sua vida?

Líderes não esperam acontecer. Eles ficam de olho nas encruzilhadas, moldam o seu futuro, e não apenas reagem a ele. (Lembre-se: você é seu próprio líder, dono de sua vida, de seu nariz. Deve no mínimo aprender a buscar soluções, a ter iniciativa, a decidir para onde ir, a fazer suas próprias escolhas e responder por elas… )

Roselinde nos convida a olhar nossa própria agenda ou rotina pessoal. Com quem você está passando o tempo? Sobre o que discute? O que você está lendo? E em seguida como você transforma isto em entendimento das potenciais descontinuidades a ponto de tomar a decisão de fazer algo agora mesmo para o qual você esteja preparado e pronto? (Isso me faz lembrar de uma placa que li numa repartição pública quando ainda era muito pequeno: “você traz a solução ou faz parte do problema ?”; enfim, vamos buscar por alternativas ou ficar “chorando pelo leite derramado” ?)

2. Qual a variedade da sua rede de suporte pessoal e profissional ?

Todos temos uma rede de conhecidos com quem estamos acostumados. Portanto esta pergunta é sobre nossa capacidade de desenvolver relações com gente que seja muito diferente nós, de mim, de você. E estas diferenças podem ser biológicas, físicas, funcionais, políticas, culturais, socioeconômicas. E, apesar de todas estas diferenças, tais pessoas se conectam a você e confiam em você o suficiente para colaborar na realização de um objetivo em comum. Ter e estar num grupo mais diversificado é uma possibilidade de estar com pessoas que pensam diferente de você e de ter acesso a diferentes soluções para as mesmas questões. (Diversidade deixou de ser apenas um discurso, mas também não é ainda uma realidade. É necessário diálogo franco, sincero; onde as partes possam se permitir estar no “lugar do outro”.)

3. Você é corajoso o bastante para abandonar uma prática que o fez bem-sucedido no passado ?

Há um expressão: “concordar para evitar conflitos”. Mas se você seguir este conselho, as possibilidades são de que você continuará a fazer o que é mais familiar e cômodo (e consequentemente não sairá do lugar, pois continuará a ter os mesmos resultados de sempre, nada mudará). Os grandes líderes ousam ser diferentes. Eles não apenas falam sobre correr riscos, eles de fato correm. E um desses líderes compartilhou comigo o fato de que o desenvolvimento de maior impacto vem quando você consegue ter a capacidade emocional para resistir quando pessoas dizem que a sua nova ideia é ingênua, imprudente ou apenas idiota. Curiosamente, as pessoas que se juntarão a você não são seus parceiros habituais. Muitas vezes são pessoas que pensam diferente e, portanto, estão dispostos a acompanhá-lo em um salto corajoso. E é um salto, não um passo. (O princípio é básico: quer um resultado novo ? Então mude o que está fazendo ou a forma como vem fazendo.)

Para concluir, quer você acredite, quer você aceite ou não, na vida, neste mundo você é sim um “cocriador”, você tem o poder de criar e quando não, tem o poder de influenciar e transformar.

Ao mesmo tempo, quer você também acredite, aceite ou não, você é “corresponsável” por tudo o que se passa a sua volta; você não é mero agente passivo, expectador ou vítima indefesa da vida. Lembre-se que o “não fazer” é uma ação negativa…

Então, o que você ganha “odiando” seu trabalho ?

E se “odiar” realmente não é o termo, o que você ganha ao não produzir, ao não colaborar ? O que você ganha deixando de contribuir para a construção de um ambiente melhor, saudável, onde todos possam ganhar – inclusive seu empregador ? (afinal, é ele quem te dá a oportunidade do emprego – ainda que muitas vezes te explore)Gato ou LEÃO

Aproprie-se do líder que há em você ! Faça a sua parte no sistema !

Ah, por onde começar ?

Identifique o que for mais importante e estabeleça as prioridades.

Experimenta !

http://www.nytimes.com/2014/06/01/opinion/sunday/why-you-hate-work.html?_r=0 )

http://www.ted.com/talks/roselinde_torres_what_it_takes_to_be_a_great_leader/transcript?language=pt-br

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